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  • Histórias de vento, laguna e pampa

    15/09/2013 | 12h45

    Marcos Macedo

    Pelotas, 29 de agosto. Mormaço. Vento norte-noroeste, quente e vaporoso. Edar Antunes Ribeiro, 71 anos, fazendeiro (foto abaixo, à esquerda), desde criança sabe que esse vento indica preparação de temporal. Aguarda viração para terça ou quarta-feira. Ele respeita os ventos: em sua Fazenda da Amizade, a 30 km de Pelotas, no Capão do Leão, as ventanias já derrubaram a antena parabólica, um chalé e um galpão.

    Edar, á esquerda: à espera da viração

    A Fazenda da Amizade é um desmembramento da antiga Fazenda Boa Vista, do tio, padrinho e pai de criação de Edar, Modesto Antunes, tropeiro trabalhador que juntou dinheiro e foi comprando campo. Edar foi criado na fazenda do tio Modesto. Lá, aprendeu a conhecer os ventos, ainda menino, com Chico Barbosa, chacreiro da fazenda.

    – Se venta quente do noroeste durante três dias, pode esperar chuvarada. Viração muito grande.

    Esse ano os maricás botaram flor no cedo, em fevereiro, já era um sinal de inverno brabo, com frio e muito vento. As forneiras fizeram ninho com a porta voltada para oeste, outro sinal de inverno brabíssimo. Nos anos em que a porta do ninho está voltada para o sul, “para os castelhanos”, o inverno é mais ameno.

    Foi também o chacreiro Chico Barbosa quem ensinou ao menino Edar as benzeduras para enfrentar os temporais. Esse é um daqueles conhecimentos que pulam necessariamente da sabedoria dos velhos para a ingenuidade das crianças. As benzeduras não podem ser ensinadas, porque perdem o poder. E não funcionam com qualquer um. “Tem gente que benze e não funciona”. É preciso ter fé.

    Na Semana Santa, antes de entrar o sol, manhã ou tarde, deve-se colher no campo carqueja, sabugueirinho ou, a erva preferida, marcela, e guardar dentro de casa. Secas, elas são naturalmente bentas; se são colhidas à noite, úmidas, perdem a fé. Quando se arma um temporal, faz-se uma oração secreta e joga-se uma florzinha de marcela em cima da casa para protegê-la dos ventos.

    Existem outras benzeduras, uma que envolve um machado que se crava numa cruz desenhada na terra, com o cabo voltado para o vento, e que tem o poder de dividir as nuvens no céu e cortar o vento em dois.

    Mas a benzedura mais comum utiliza a faca que o gaúcho sempre leva na cintura. Machados não estão sempre à mão como a faca está. Rezando com fé, de frente para o vento, quando o temporal está se preparando, a qualquer hora, seja de dia ou de madrugada, deve-se cortar o ar em formato de cruz. Aí o temporal e as nuvens vão se separando e os ventos, amainando.

    ***

    Teiniaguá: domínio dos ventos

    Essa benzedura que associa ventos e cruzes faz parte da cultura gaúcha mais ancestral. Ela está presente na lenda da Teiniaguá, contada por Simões Lopes Neto em “A Salamaca do Jarau”. Os mouros de Salamanca, mestres em artes mágicas, descontentes por terem sido vencidos pelos cristãos nas Cruzadas, vieram para o Rio Grande do Sul, trazendo consigo sua fada, uma linda princesa, disfarçada de velhinha.

    Quando chegaram aqui, fizeram um pacto com o Diabo, que transformou novamente a fada de velhinha em teiniaguá, uma lagartixa sem cabeça. No lugar da cabeça, o Diabo colocou uma pedra vermelha transparente, cujo brilho ao sol cegava quem olhasse para ela. A seguir o Diabo mostrou à teiniaguá todas as furnas do Cerro do Jarau onde havia tesouros escondidos.

    Mas o Diabo não sabia que a teiniaguá era mulher, jovem e linda princesa moura. Um sacristão das Missões a encontrou quando saía de uma laguna de águas ferventes, e meteu a lagartixa numa guampa com água, na esperança de que ela a levasse aos tesouros do Cerro do Jarau. Escondeu-a em seu quarto e a alimentou.

    Uma noite, a teiniaguá transformou-se em princesa moura, o sacristão foi tentado, e pecou. No dia seguinte, os padres o encontraram no quarto, bêbado, o ar com cheiro de mulher. Foi condenado à morte.

    Quando o carrasco preparava-se para matá-lo, “um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as árvores desprenderem os seus frutos, de os animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem de cócoras, aguentando as armas, outros, de bruços tateando o chão...” A teiniaguá, a lagartixa com cabeça cegante, saiu de uma lagoa com a pedra vermelha faiscando.

    Num milagre, Deus, o “Santíssimo, (...) lá de cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!”. Carrasco, padres, gente do povo, todos fugiram, mesmo “sem ter mais que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!...”

    A teiniaguá libertou então o sacristão e levou-o para viverem juntos na Salamanca do Jarau.

    ***

    Em Pelotas, as estações de transição, outono e primavera, são as mais ventosas. Entre elas, a mais ventosa é a primavera, com o vento nordeste que à tarde é mais intenso, com seus ventos rebojos, que num redemoinho levantam as folhas e a terra, e se desfazem subindo para o céu.

    Alguns dizem que o rebojo é uma briga de galos, entre vento frio do inverno que vai e vento quente da primavera que chega, sinal de que uma estação está entrando e a outra ainda não foi embora. Outros dizem que é o vento do Diabo, que surge no lugar onde ele sai das profundezas da terra. O rebojo cava o chão e destrói a lavoura, antes de levantar para o céu.

    Contam que Érico Veríssimo havia escolhido “o Vento e o Tempo” como título da saga das famílias Terra, Cambará e Amaral, e só inverteu para o nome definitivo nas provas finais do livro.

    O episódio “Ana Terra” começa com a declaração de Ana: “Sempre que me acontece algo importante, está ventando”. Lembra que algo aconteceu na primavera, “porque o vento andava bem doido”. Quando os ventos amainavam, pelo cheiro do ar, pelo calor que começava, sabia que entrava o verão. Depois, o outono, um arrepio no ar e céu alto.

    Como não tinha com quem conversar, Ana Terra cresceu ouvindo a voz do vento “eterno viajante que passava assobiando ou gemendo” e nunca apeava. No verão, a mornidão úmida do vento norte, instável, de vez em quando amainando, de repente soprando numa rajada mais forte.

    No inverno, o Minuano, o vento frio e seco que sopra do sudoeste e que vem dos Andes, passando pela região onde habitavam os índios minuanos, dos quais tomou o nome, entre o vale do Rio Negro, que atravessa o Uruguai, e o litoral.

    O Minuano dissipa as nuvens e prenuncia tempo firme e seco. Penetrante, ele endurece os dedos das mãos e dos pés, e junto com o sol, curte o rosto dos homens. Dizem que ele dura geralmente três dias. Quando ele sopra, os gaúchos dizem que é porque os castelhanos estão descontentes com os brasileiros.

    ***

    Os gaúchos do campo mantêm com o vento uma convivência cheia de reverência. No pampa o vento sopra livre, sem obstáculos que lhe alterem a força e a direção. Nas cidades, ele encana pelas ruas e perde o sentido e a força. As ruas da cidade do Rio Grande, por exemplo, foram construídas com alguma curvatura para mitigar os fortes ventos do mar.

    O Rio Grande do Sul tem em comum com os desertos e os mares as paisagens planas e abertas. Por isso, divide com eles a reverência com os ventos. Os pescadores acreditam que os ventos de Finados revoltam o mar e trazem à terra os corpos dos afogados e o que mais estiver em seu fundo. Preferem o vento noroeste que traz boa pescaria.

    Heródoto, o historiador grego da Antiguidade, conta que no deserto da Líbia uma nação se enfureceu de tal forma contra o vento Simmum que lhe declarou guerra. “Marcharam contra ele em formação de batalha, para serem todos, num instante, completamente sepultados”.

    No sul do Marrocos, há o Aajej, um tufão contra o qual os felás se defendem com facas, à semelhança do gaúcho Edar. “Há também o ________, o vento secreto do deserto, cujo nome foi apagado por um rei depois que seu filho morreu por causa dele”.

    No Capão do Leão, na Fazenda da Amizade, Edar Ribeiro procura babas de boi no ar, sinal de chuva na certa. Se os cavalos e o gado dispararem para o mato, os bichos cabeludos se amontoarem no chão, são sinais de temporal e mandados, como ele chama os raios. Um mandado já lhe matou dez ovelhas e dois cavalos de uma só vez.

    Se o sol se põe vermelho, sinal de seca. Se desce por trás de uma barra, é chuva. Quando a fumaça desce em vez de subir, quando os pássaros voam em bando, é porque vai chover.

    Edar aguarda a viração com a faca na cintura. Cortará o ar em cruz, fará sua oração secreta com fé, e o vento baixo levantará para o alto e as nuvens se dividirão.

    – Temporal levantou, – dirão.

    – Vai cortado.

    * Publicado originalmente em 29/08/2009.

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    3 Comentários
    • maria tereza natorf - 17/09/2013 - 06h01

      Marcos. Muito intenso e lindo o teu texto. Ao falares do clima ,caracterizas o gaúcho, principalmente o da campanha. Parabéns. Maria Tereza
    • Heloísa Corrêa - 16/09/2013 - 13h57

      Não deixo de ler a tua coluna Marcos, sempre com assuntos interessantes. A de hoje, é imperdível, vou repassá-la a alguns familiares que não acessam a internet. Admirável, cumprimentos. Abrs., Heloísa.
    • Beatriz Amado - 15/09/2013 - 14h37

      Belíssimo texto,cheio de histórias e lembranças da minha infância! Parabéns !